8 de julho de 2012

Invasor

Fotografia por Mara Solange Menna

Paralelas


Paralelas                                        

Caminhando sem rumo pelas ruas desertas

Sem me fixar nos rostos desconhecidos

Um homem com passos vacilantes me convida

Vou para o lugar dos seus sonhos

Você quer ir?

Fujo correndo como uma louca

Com medo de aceitar seu convite

Que vem ao encontro dos meus desejos

Paro ofegante em frente à igreja fechada

Uma mulher intercepta meu caminho

E grita

Se você ficar louca

Ninguém vai te internar no manicômio

Perdi-me no caminho

Desviei do meu plano

Desencontrei de mim.
           
             Texto de Lucia Marina Rodrigues

5 de julho de 2012

Fui! E daí?


Fui!E daí?

Zélito, homem de boa índole, franzino, conhecido por todos no bairro de classe média baixa era aposentado como funcionário público do Estado. Para complementar a aposentadoria fazia “bicos”, de qualquer serviço, enfim um faz de tudo um pouco.

Morava no condomínio, ou pombal como chamam os emergentes que atualmente moram em casas enormes em regiões chamadas de residencial condomínio, por isso esses conjuntos de quarto e sala passaram a se chamar de pombal.

Sua mulher era bem robusta, com o cabelo pintado de amarelo, gema de ovo, carapinha, mas Zélito tinha adoração por sua esposa e fazia todo serviço caseiro, inclusive encerar o já desgastado piso do apartamento. Devido ao seu peso dona Deusa permanecia quase o tempo todo sentada no velho sofá da minúscula sala e era manicure das amigas do condomínio,para ajudar no orçamento.

Aparentemente o casal era um exemplo de amor, fidelidade, cumplicidade.
O único defeito ,se é que podemos dizer,Dona Deusa não passava um segundo sem o cigarro na boca,e isto Zélito não deixava faltar.Quando saía de casa já trazia um pacote fechado para sua amada não se estressar ou abrir a boca para reclamar . Suas amigas a invejavam por ter um maridão como ele.

Uma noite escura, com chuvas de março torrenciais, verdadeiro dilúvio, Zelito chegou ensopado como um pinto. Tinha ido fazer um reparo num apartamento de um bacana no bairro de Ipanema e seu carrinho de estimação ,um Fiat 147,pintado de azul claro ,parou repentinamente na Linha Vermelha.Ele mesmo debaixo daquela chuva tentou consertá-lo ,mas foi assaltado e roubaram as peças ,e com pena de deixá-lo na chuva ,um senhor de idade como ele ,deu cinco reais para pegar um frescão (ônibus).

Devido à hora adiantada ,Zélito foi caminhando até o Meyer onde morava,distraindo com os pensamentos que ultimamente ruminavam em sua cabeça e com uma imensa tristeza de ter perdido seu super carro, único fruto de seu trabalho que conseguiu amealhar.
Chegou a casa, e?Esqueceu os cigarros!

Dona Deusa, egoísta, só perguntou dos cigarros e Zélito, molhado como uma galinha que vai ser depenada desceu as escadas desabaladamente, para procurar alguma birosca aberta e comprar o alimento sagrado de Deusa.
Tudo fechado. A chuva forte parou e apenas uma leve garoa molhava seu rosto.
Quando viu um posto de gasolina com o bar aberto entrou, pediu os cigarros e aproveitou para conferir seu bilhete de loteria. Estava milionário.

O primeiro prêmio, depois de uma vida inteira jogando foi premiado. Jogou o pacote de cigarro, o qual sempre odiou os malefícios e o cheiro que impregnava a sua moradia e roupas e saiu andando a esmo, sem rota determinada, e sem documentos.

Naquela noite dona Deusa esperou em vão e outras também. Pediu ajuda ao seu vizinho diabético para ajudá-la a encontrar o marido, e nada.
Foram ao necrotério, polícia, jornais e todos os órgãos públicos. Ninguém sabia ou viu o Zélito.Era uma viúva de um homem vivo ou morto ,mas nem a pensão poderia receber porque o corpo não foi encontrado.

Seu vizinho diabético começou a lhe fazer companhia e depois de algum tempo se ajuntaram no mesmo conjugado, com a diferença que dona Deusa é que tinha que cuidar dele, o que nunca fez por Zélito.

Algum tempo passou.

Em um domingo ensolarado, depois da macarronada com frango, seu novo companheiro deitado no sofá que outrora fora seu,vê na televisão a corrida de fórmula Um os torcedores no Principado de Mônaco e um dos assistentes era Zélito. Ele chama por Deusa e ela chega devagar com suas banhas balançando, já gritando, porque está puta da vida de tratar esse novo marido como um rei, ela que sempre foi uma Deusa com Zélito.
Ah, como ele faz falta!Que saudades!Quando o homem conta que viu seu ex no paraíso dos milionários, vivinho e bem acompanhado, ela chora e não acredita.

Tem certeza que o “seu” Zélito, o único que a tratou bem e nunca a deixou sem seus cigarros deve estar em alguma vala, morto por algum bandido, por isso ninguém nunca o encontrou, e tudo por sua culpa que exigiu que ele fosse buscar cigarros, esse seu vício maldito.


Dona Deusa desde que Zélito morreu, para ela, deixou o vicío e nunca mais fumou, pois sentia se culpada.
Quanto a Zélito,quando se lembra da sua antiga vida ,só pensa todo feliz, e sem remorso algum: fui! E daí?


Conto de autoria de Lucia Marina Rodrigues para o concurso "Machado de Assis" da CoesaoPoética 2012



3 de julho de 2012

Santa

Fotografia por Mara Solange Menna

Espelho

Fotografia por Rodrigo Moura

Portas de Oportunidades

Aquarela por Lucia Marina Rodrigues

Galeria

Todos sentimentos podem ser expressados em forma de Arte.
Nesta Galeria vamos priorizar a estética e o pensamento contemporâneo.
Faremos uma exposição virtual que instigará sua mente.
A interpretação é sua ,você é dono do seu pensamento.
Contamos com a colaboração do fotógrafo profissional Rodrigo Moura,da psicopedagoga e restauradora Mara Solange Menna , alguns trabalhos  de minha autoria  e  de outros que queiram se juntar a nós.
Convido a todos que apreciam artes para vivenciar esta exposição virtual que postaremos individualmente.
Obrigado.
                                                                                                                    Lúcia

2 de julho de 2012

Híbrido

                                                             Fotografia por Rodrigo Moura

Híbrido :que provém de espécies diferentes,composto de elementos de origem diversa.

1 de julho de 2012

Um Dia Feliz


                                            Um dia feliz...
O despertador antigo tocou aquele comum rimmmmmmmmmmmmm, e ela esticou o braço apertando o botão de parar. Foi rápido ,pois já estava acordada há tempos,ou melhor não dormiu devido a excitação.O ponteiro marcava 3 horas .Não precisaria de mais que quinze minutos para estar pronta ,pois o primeiro ônibus começa a circular a partir de 4 horas,mas a felicidade que sentia era maior que o medo e ela não passa duas vezes no mesmo lugar ,então temos que estar despertos para agarrá-la.

Seu momento havia chegado .

Vestiu a melhor roupa: camisa de algodão xadrez azul e branco, calça comprida de brim, uma imitação barata de jeans, sandália de couro cru, tipo nordestino e a bolsa preta surrada. Verificou mais uma vez  os documentos ,olhou no espelho passando um pouco de sabonete no cabelo para assentar alguns fios carapinha.

Fechou a porta delicadamente e saiu para o amanhecer que ainda dormia. As ruas desertas não amedrontavam.Porque quando vamos ao encontro do que queremos não vemos o perigo a espreita,esqueceu até das palavras que sempre pronunciava antes de sair: “Orai e Vigiai”.

Subiu a escada escura e mal cheirosa da ruela até atingir a rua principal. Esperou ansiosa o primeiro ônibus para levá-la até a Rodoviária.

Não queria chegar atrasada e outro ônibus intermunicipal circulava com poucos horários. Mas tudo daria certo .Estudou o percurso desde que chegara no seu pequeno quarto e viu o telegrama para comparecer no endereço para tratar assunto de seu interesse.

Ela vibrou muito, sabia que se tratava de um emprego o qual sonhara e se preparou durante anos para essa oportunidade. Seu dia chegou.

Quando o ônibus intermunicipal estava na estrada, denominada Rodovia da Morte, ficou em pé para localizar o local que teria que descer. O motorista parou no quilometro indicado e ela desceu.
Lá estava ela, seu sonho, imponente, muitos prédios rodeado de um jardim enorme, tudo muito limpo. Outro mundo ,ela pensou ,e eu quero muito pertencer a este lugar . Eu mereço.

Na portaria suntuosa se identificou e não se importou com os olhares de desprezo das recepcionistas quando disse a que veio.

Orientaram como chegar ao prédio, dentre muitos, e mais uma recepcionista pediu para esperar, até que o doutor a chamou.

Sentado em sua mesa, foi muito objetivo, apontou uma lousa e já foi testando seu conhecimento para o cargo.

Ela respondia a tudo e escrevia com o giz rapidamente sem pestanejar em nenhum momento.

Quando acabaram as perguntas ele disse: eu prefiro um homem para esta vaga, e observando ela dos pés a cabeça,continuou dizendo , acho que não terei nenhum problema com a senhora, a vaga é sua “doutora”, mas vejo um problema que talvez você não queira aceitar. Ela mais que depressa foi responder que aceitava qualquer exigência, ele cortou sua palavra e disse que o salário seria de uma certa quantia que a deixou com a cabeça fora de órbita. Era muito ,mas muito mais que ela almejou ganhar na vida ,talvez porque não se julgasse merecedora de tanto .

Despediu-se e agradeceu, querendo se ajoelhar na frente daquele simpático senhor de olhos verdes. Ele se aproximou, apertando forte sua mão dizendo: então até amanhã se você puder começar já “doutora”. E ela humildemente respondeu:sim posso começar amanhã mesmo e obrigado por me tratar de “doutora”.
E ele respondeu :somos iguais ,temos o mesmo conhecimento e somos doutores.

Ela queria só sair ràpidamente e chegar até sua mãezinha para contar tudo que aconteceu. Seu sonho ,suas preces ,tudo compactuou para essa realização.

Quando saiu da portaria sentiu que seus pés não tocavam no chão, parecia que voava e com um sorriso nos lábios colocou os pés para atravessar a rodovia do outro lado onde tomaria o ônibus de volta.

Ouviu um barulho forte e estava voando novamente, é de felicidade pensou e sorriu.
                                          Aquarela por Lucia Marina Rodrigues

Estava voando, é a pressa de chegar e contar para mãezinha.
Sentiu seu corpo leve como uma pena e seus enxergaram longe e viram :um corpo estirado na estrada ,viu uma camisa de xadrez azul .
Que é isto?
Sou eu caída no chão?
Não pode ser!
Estou voando, não sinto meus pés, mas é de felicidade.
E meu corpo não sinto!
Sou duas?
Quem está com minha roupa caída no chão?
Porque não sinto meu corpo?
Ei, estou aqui!
Ninguém me vê?
Eu preciso contar para mãezinha que realizei o meu sonho!
Ei!
Para onde estou indo!
Eu vou começar a trabalhar amanhã!
Ei me escutem!
                                                                            Lúcia Marina Rodrigues